sexta-feira, 20 de março de 2015

Carta a uma (ex)amiga

Durante dez anos a tua amizade foi a maior de todas as minhas amizades.
Na altura, se fosse adolescente, usaria o termo que tanto se usa hoje, BFF. Tantas confidências que fizemos. Tantos jantares, tantos encontros, tantas festas, na casa de uma e outra. 
O negócio que os nossos maridos criaram juntos foi motivo para ainda nos aproximar-mos mais. Seria mais tarde também o "motivo" pelo qual nos afastaríamos para sempre. 
Essa tua maneira de gozar e humilhar os outros, tinha a sua piada, caracterizando-te, sem te tirar o valor que para mim tanto tinhas. Amei-te com uma amizade que vinha da alma, aceitando os teus defeitos e muitas vezes, com muita paciência, o teu  mau feitio. Partilhei contigo a minha vida, e durante algum tempo, a minha casa, sem regras, nem limites, de modo a que te sentisses como se estivesses na tua própria .
Um dia porém, atravessava  eu a pior fase da minha vida, por isso mais frágil, mais sensível, com uma auto-estima mais pequena que um grão de poeira e tu despoletaste-me um golpe, que me fez cair  (quase) até ao fundo do abismo. Quando me tocou a mim ser humilhada, sem dó nem piedade, na casa, que de coração partilhei contigo, foi demais para mim. Nestas situações, a violência com que somos atingidos depende muito do nosso estado de espírito, e eu não estava nada, mesmo nada, bem!
Durante meses e meses tive pesadelos. Tive pelo meio uma depressão que diagnostiquei a tempo. Senti raiva. Senti mágoa e revolta.
O tempo foi passando. Os anos foram passando. A raiva passou, a dor e a revolta também.
A vontade de me aproximar e de te deixar aproximar chegou a ser tentadora, mas sempre afastada, receando abrir novas feridas em cima das cicatrizes. Continuei a saber da tua vida por amigos comuns e pelas redes sociais. O teu divórcio, o teu sofrimento. A vontade de te dar apoio foi sempre afastada mas não deixei de desejar, nem por um minuto, que fosses feliz. E foste.
Depois de um e outro novo amor, tiveste aquele que seria o grande, autêntico e grandioso amor da tua vida. Aquele com quem tu virias a sentir o que era, de facto, o amor verdadeiro. Eu via imagens da tua felicidade, da vossa felicidade, no FB do meu marido e dizia-lhe tantas vezes que bom que tu eras tão  feliz. Mas a vida por vezes é tramada. Depois de alguns anos, muito poucos, com o grande amor da tua vida, ela decidiu que a viagem dele chegara ao fim. 
Choraste a morte dele com todo o teu ser. Lamentaste o pouco que viveram juntos, mas bendisseste  o tanto que tinham partilhado. Eu, apesar de não me ter aproximado, chorei contigo, lamentei que a tua felicidade tivesse sido tão curta. 
Presencio com imensa tristeza as saudades que te desgastam a sua ausência. A força que de repente ganhas para continuar a vida, por ti, pela tua filha e, constantemente, o esmorecimento, próprio de quem perdeu uma parte de si.
Na vida, o que não nos consegue destruir, torna-nos fortes.
Na realidade, sinto bem cá dentro da minha alma que, por mais absurdo que pareça, o golpe que me despoletaste um dia, há uma dúzia de anos atrás, contribuiu para eu gostar tanto de ser quem, e como sou! Por isso,  não deixo nunca de agradecer,  teres um dia, feito parte da minha vida.


9 comentários:

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    1. Também gosto muito de si Miss Smile.
      Adoro lê-la. Adoro o seu sentido de humor, já me tenho rido imenso consigo!
      beijinhos

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  3. Lema a ter em conta:
    _ "Na vida, o que não nos consegue destruir, torna-nos fortes."

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    1. É verdade de Maria da Graça. Ainda que por momentos só consigamos ver o lado negro das coisas, depois, com o tempo, há que somar tudo o que vem de positivo com o que, aparentemente, parece ser tão mau. Depois de passarmos pelo que é menos bom conseguimos sentir o verdadeiro esplendor do que é realmente bom na nossa vida!
      Beijinhos

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  4. Minha querida Lete,
    Ao ler-te senti uma dor enorme no meu peito, reavivaste memórias, um pouco identicas as tuas que também vivi, por isso sei bem da dor que falas.
    Mas acredita e pensa que tudo acontece por um bem melhor, força.
    Beijokinhas

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    1. O importante é a gente tirar sempre uma lição positiva destas coisas menos boas.
      Acredito que sim, nada acontece à toa, e apesar do que sofri, aprendi imenso com tudo isto. Já não tenho mágoa, nem dor pela situação. E, apesar de tudo, sei que a pessoa em causa tem qualidades muito boas, por isso mesmo, nunca me será indiferente. Vê-la de novo feliz seria o suficiente para mim.

      Beijinhos

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  5. Nem sei o que te diga..
    Ainda bem que ficaste mais forte depois desse murro no estômago, quantos e quantos temos nesta vida que ao ultrapassarmos nos fazem crescer. Pelo que já conheço de ti, sei que eras perfeitamente capaz de voltar a dar a mão a essa pessoa sem ressentimentos, tenho é as minhas dúvidas se essa pessoa iria merecer. O que passou, passou, não olhes para trás e segue em frente, que és feliz assim. Beijinhos L. Tu és forte, tu és linda :)

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    1. Eu também acho que lhe dava de novo a mão. O sofrimento dos outros sempre me fez muita confusão, se eu pudesse minimizar a dor dela nesta altura, acho que sim, que o faria.
      Obrigada por todo o carinho Gaja. As tuas palavras são um bálsamo para mim.
      Beijinhos e um abraço apertadinho

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