quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai

Nunca foi de muitas palavras o meu pai. 
As memórias que tenho dele são do homem que trabalhava arduamente, noite e dia, sendo o único sustento da família. Por vezes, em alturas de mais trabalho,  já o calendário apontava para um novo dia,  ainda ele andava às voltas com trabalhos, na carpintaria. Por volta das quatro da madrugada, muitas vezes estava  já desperto para fazer os biscates, antes de ir para a empresa. Sempre foi muito empenhado no que fazia e, aparentemente, desligado do mundo.
Há momentos que a vida não me apaga. O ar feliz com que ficava quando eu ia para junto dele ver nascer, de pedaços de madeira, bancos, mesas e cadeiras. A corrida que eu andava a ia ter com ele, quando de cima do quintal o via a chegar, lá em baixo, ao plátano. Ele colocava-me em cima da bicicleta, sempre sem dizer palavra, e transportava-me até casa, com ela à mão, porque a subida era íngreme, e o cansaço dele era muito.
Era o meu pai, que quando não havia mais nada para comer, para além da sopa, que ia aos frascos grandes de vidro buscar um salpicão ou uma chouriça, que a minha mãe conservava em óleo, para dias especiais. A minha mãe às vezes zangava-se, mas ele não lhe ligava nenhuma, partia-os em pedacinhos e todos petiscávamos com um pedaço de broa amarela.
O meu pai, aparentemente, ligado só a si próprio, nos dias escuros de inverno, ia-me esperar ao autocarro, quando eu chegava mais tarde da escola, quando se imaginava que ele nem o horário sabia.
O meu pai era a minha segurança, quando eu, a entrar na adolescência e extremamente tímida, tinha um ou outro rapaz que me tentava abordar para um namorico. Eu ia de braço dado com ele, de modo a que nenhum se tentasse aproximar de mim.
O meu pai nunca nos cobrou a vida dura que teve, para que nós pudéssemos seguir o caminho que ambicionávamos. O meu pai, embora orgulhoso dos filhos não acabarem numa fábrica, ou na construção civil, como era quase norma na nossa aldeia, naquela época, nunca o demonstrou publicamente, era uma alegria só dele.
Hoje o meu pai continua a ser um homem de poucas palavras. Continua a estar presente, apesar de aparentar ausência. O meu pai fica feliz quando nos vê todos em sua casa e se falta um neto ou neta, já ele está a perguntar por eles, depois desliga-se, aparentemente,  e vive-nos, como sempre nos viveu, à sua maneira, no silêncio das suas palavras.

Bom dia a todos e um dia feliz dia do pai, a todos os pais que por cá passam

6 comentários:

  1. Bela homenagem linda!
    Eu também tive por companheiro o meu api na infância e na adolescência...pois como filha mais velha...levava-me à missa e ao cinema! Hoe cuido dele e inverteram-se os papéis!!! Bj amigo

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  2. Que seja um dia feliz, com um abraço apertadinho e uma beijoca gorda e fofinha :)

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  3. Linda homenagem, carinhosa, tocante e parabéns aos papais em seu dia! Aqui é em agosto! beijos,chica

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  4. É muito bonita a homenagem que presta ao seu pai e o carinho como descreve a sua presença parca de palavras, mas plena de amor. Tentar compreender o outro na sua essência é a maior prova de amor que podemos dar a alguém.
    Um beijinho

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  5. Muito lindo o texto! Linda homenagem!
    Adoramos o teu blog e já estamos a seguir, passa pelo nosso , tem look novo por lá! Beijinhos
    http://hashtagwwgu.blogspot.pt/

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  6. Uma bonita homenagem que me tocou bastante, pois infelizmente já não posso abraçar o meu. Beijinhos

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