terça-feira, 14 de julho de 2015

Crónicas da Maria

14 de Julho de 1987


Maria no ano lectivo 1986/1987 tinha feito uma pausa na escola, para ficar em casa a tomar conta da mãe que tinha caído abaixo do escadote, no decurso de uma vindima. As fracturas múltiplas nas costelas e a fractura na clavícula incapacitaram-na e durante alguns meses  necessitaria do apoio de alguém para cuidar de si, da casa e dos filhos mais novos. Foi sobre Maria que recaiu a escolha.
Após alguns meses a cuidar da família e depois das melhoras da mãe, Maria, por altura da Primavera, decidiu, junto com a mãe, ir trabalhar enquanto não chegasse o novo ano escolar, para ganhar um dinheirinho para as suas coisas.
Assim foi. Maria, num perfumado dia de Primavera, envolta em receios e apreensões ingressou numa fábrica de calçado. Apesar de tensa, ao mesmo tempo ia satisfeita  por poder fazer algo que lhe se desse um retorno  visível.
O trabalho não era leve, mas Maria já estava habituada e facilmente se adaptou a essa nova forma de passar os dias.
A limpeza da fábrica era efectuada, à vez, por uma funcionária escolhida pela encarregada. Tratava-se de varrer todas as aparas de pele do calçado, amontoá-los no quintal e queimá-los numa enorme fogueira que acendiam para o efeito. Usavam um produto altamente abrasivo, chamado de benzina, para que a fogueira ardesse como seria necessário para queimar todo aquele amontoado multicolor de pedacinhos de pele e vinil.

Nesse fatídico dia, dia do aniversário da mãe de Maria, ela que queria ir cedo para casa, mas, para além de ter sido obrigada a fazer horas extraordinárias, ainda foi a escolhida para limpar as instalações. Apesar de aborrecida pelas coisas não estarem a correr como pretendia, despachou-se na limpeza. Depois de amontoar o lixo no quintal e do o ter regado com a malfazeja benzina, na altura que atirou o fósforo para o amontoado, levantou-se vento leste, que fez com que o frasco que tinha na mão começasse a arder, e ela também. Maria desse momento só se recorda que começou a correr pela fábrica dentro aos gritos em quanto, ao mesmo tempo, se ia despindo. De resto só se lembra de ter acordado ao outro dia na cama do hospital. O cheiro a chamusco que lhe vinham dos cabelos fizeram-na recordar-se do que tinha acontecido. O elástico que lhe prendiam os imenso cabelos dourados tinha evitado uma tragédia ainda maior.  
Quando os enfermeiros fizeram a ronda da manhã, Maria, debaixo de dores insuportáveis, ficou a saber que tinha sofrido queimaduras de 3º grau no seu braço direito, bem como na zona lateral direita do dorso. Durante 20 dias Maria esteve internada, sofrendo horrores na hora de fazer o penso, mesmo debaixo das mais forte medicação.
Foram longos meses de sofrimento entre pensos, cirurgia para retirar colóides que impediam o braço de esticar e fisioterapia diária.
A frágil auto-estima de Maria foi uma das partes mais afectadas. Quando se é adolescente sente-se que o aspecto físico é a coisa mais importante para que se seja vencedor. Maria não largou a manga elástica durante muito tempo, a partir de dada altura mais para esconder as feias cicatrizes, que própriamente pelo efeito terapêutico.

" Uma vida sem obstáculos é um vida vazia. Para sentires plenamente a tua vida, tens de sentir os altos e os baixos. Só então saberás o que significa verdadeiramente estar vivo "

Robin Sharma

5 comentários:

  1. Tenho a certeza que a Maria soube transformar uma experiência tão traumática e dolorosa em sabedoria e verdadeiro apreço pela vida. A vida, por vezes, é dura e cruel. Mas as pessoas especiais são aquelas que encontram um sentido para o que de desfavorável lhes acontece.

    Um beijinho com muito carinho e respeito

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  2. Quantos casos eu conheço semelhantes ao da Maria. Na maioria deles todos recuperaram a sua auto-estima pois a beleza não é apenas exterior. Mas vem do interior de cada um. E quem de nós não tem uma ou outra cicatriz? Beijinho Maria

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  3. Uma história arrepiante que não se quer ver acontecer!
    Conheço gente que já passou pelo mesmo e superou as suas cicatrizes!
    Espero que Maria o tenha conseguido!!! Bj

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  4. Maria, são experiências que nos ajudam a ser mais fortes. Os maus momentos, quando ultrapassados transformam-nos em pessoas melhores. Pessoas como a Maria, são verdadeiramente especiais :)
    Beijinhos

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  5. Estou arrepiada... Mas apesar de tudo, fico feliz, por "Maria estar bem, viva", e espero que com o tempo tenha percebido que o mais importante não é o aspeto físico... :)
    Beijinhos

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