quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crónicas de Maria.

O verão decorria  abrasador. A caminho da fonte, para buscar água fresca, os chinelos de dedo colocavam-se ao alcatrão derretido pelo calor, dificultando-lhe o caminhar.
Os rapazes (os irmãos e os vizinhos) por aquela altura do ano já se fartavam de ir para a presa de Fontes refrescarem-se, sem que as cobras de água, que por lá muitas vezes surgiam, fossem objecção. Maria, tal como as irmãs, não o fazia, porque aquele espaço era reservado  a rapazes em cuecas e até, em certos casos,  tal como vieram ao mundo. As únicas alternativas que lhes restavam era os refrescos de água com cevada, açúcar e muito gelo e os banhos dentro de tanque de casa.
Ao lanche ia à horta, colhia  um pepino que descascava, partia em quatro, colocava  um pouco de sal no meio e fazia o seu lanche. Outras vezes um tomate. Por vezes fazia gelados de limão, de cevada ou de leite porque  a vontade aguçava o engenho.
Na época das amoras era uma alegria cheia de arranhadelas. Amoras com vinho tinto e açúcar era dos lanches mais apetecíveis. Por ali nem se questionava que o vinho colocado nas amoras pudesse ser mau para as crianças. Não se pensava nisso.
Ao fim da tarde a mãe mandava-a chamar os irmãos que na presa, no meio do monte, ficavam a refrescar-se até tarde. Maria, para que nenhum dos rapazes se sentisse intimidado perante a sua presença  e a própria nudez, ia pelo caminho de cima do monte, de modo a que fosse ouvida sem ser vista, mas pudesse ver. Aproveitando os últimos raios sol, espalhados pela erva que circundavam a presa, estendiam-se imensos corpos nus e bronzeados. Maria observa-os de olhar fugidio e regressava a casa, atenta a qualquer movimento nas beiradas do caminho, receando que lhe aparecesse alguma cobra.
No fim de jantar " a canalha" ia para a frente de casa de Maria, a pedreira, um pequeno monte onde habitavam alguns pinheiros, eucaliptos, enormes giestas e pedregulhos e brincava aos cowboys,  à luz dos candeeiros da estrada, com pistolas de madeira feitas por eles. Na envolvência do canto das relas e com morcegos a tocar, uma ou outra vez, as cabeças, ouvia-se um intercalado " pum-pum, matei-te" e, por vezes um " não mataste nada, tu não me viste".
Maria por vezes entrava nessas brincadeiras. Outras vezes, colocava na varanda de casa o rádio gravador com a cassete de Júlio Iglésias a tocar, que de vez em quando já desafinava, gasta pelo uso, e olhando o céu, quase sem espaço para mais estrelas, sonhava ainda acordada.

10 comentários:

  1. Gostei de ler :) É para continuar? Espero que sim.
    Beijinhos, Maria

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    1. Fico feliz que tenhas gostado. Esta é apenas mais uma crónica solta, das memórias, umas doces, outra nem tanto, que Maria (eu), guardo dentro do coração!
      Beijinhos

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  2. Tão bonito, querida Maria, tão bem escrito :)
    Obrigada por partilhar memórias tão belas. Senti-me completamente dentro da história. Até me servi das amoras, que adoro :)

    Um beijinho

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    1. Com um elogio destes, Miss Smile, já ganhei o dia :).
      Um beijinho

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  3. Maria, já vi esse filme! Já, já!
    Gostei muito do texto.
    Beijinhos

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    1. Estou em crer que temos muito em comum:)!
      Muito obrigada Nina

      Beijinhos

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  4. Fizeste-me viajar à minha infância, as memórias que guardo são mesmo assim!
    E quando nas noites quentes nos deitavamos no chão da varanda à espera que a casa arrefecesse!Tenho saudades, muitas saudades, mais vossas do que desses tempos, mas fica a nostalgia das memórias.

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    1. Eu também lá estive enquanto relembrei. Sim, claro que estas memórias estão associadas às pessoas e às vivências partilhadas:)
      Mas, ao contrário de ti, também porque estou menos distante, sem um mar a separar de todos, sinto-me revigorada com estas lembranças.
      Beijinhos querida e até breve (era tão bom que pudesses estar cá para o pic-nic familiar)

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  5. Memórias que escritas com página fazem um magnífico texto!!! Bj

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  6. Que bonito Maria e tão bem escrito. As memórias de infância transportam-nos de volta para elas e voltamos a vivê-las. Beijinho

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