quinta-feira, 2 de julho de 2015

Vidas refeitas

Luísa tinha conseguido finalmente colocar um ponto final numa relação que lhe degradava a alma há imensos anos.
Durante os anos de namoro com Manuel, o entendimento e a relação eram praticamente perfeitas. O desejo de se unir a ele para sempre, através do matrimónio, foi construído pelo tempo e pelo amor indiscutível que os unia.
Num dia quente e soalheiro do início de Setembro, numa festa cheia de alegria contagiante, entre parentes e amigos aconteceu o dia mais feliz da vida de Luísa, o seu casamento com Manuel. Partiram em lua de mel  e viveram as suas primeiras  férias juntos e também as únicas.
No primeiros dois anos de casamento as gentilezas e afectos saiam de ambos com uma espontaneidade própria de quem se ama inteiramente.
A chegada do 1º filho, porém, mudou tudo. Manuel teve depressão pós-parto e começou a chegar  muitas vezes tarde a casa,  ausentando-se outras tantas, desculpando-se com o negócio, para não enfrentar as responsabilidade paternal. Luísa foi mãe, pai, empregada doméstica, trabalhadora, esposa e poucas vezes mulher.  Mas nem por isso desistiu do seu casamento. No fundo da sua alma, acreditava que Manuel tinha um bom coração e que um dia veria o quanto estava errado e quanto perdia ausentando-se da vida do filho e da vida de ambos.
Os anos foram passando, e ainda que Manuel tenha começado a interagir mais com o filho após o desfralde, a relação deles teve momentos péssimos em que a palavra "separação" era muitas vezes mencionada. A solidão de Luísa era imensa. A falta de carinho e as ausências de Manuel  tinham-lhe aberto uma ferida no peito que não havia forma de curar..
Houveram momentos que, ilusoriamente, Luísa acreditou  que o seu Manuel de antigamente tinha regressado. Foi, num desses momentos que voltou a engravidar, três anos após o primeiro filho.
Entre amuos, zangas, discussões, e essencialmente ilusões, os anos passaram uns atrás dos outros, sem que Luísa se desse conta, tal era a vida preenchida que tinha em torno dos filhos, do trabalho, da casa. A insatisfação da sua relação foi deixada a um canto, como que esquecida. Luísa tinha deixado de lado a luta pela sua felicidade pessoal para cuidar dos seus maiores amores.
Os filhos cresceram entretanto, tornaram-se autónomos e  independentes. Nessa altura, com quarenta e oito anos, Luísa sentiu nas ausências deles, um enorme vazio. Manuel continuava com ela, mostrando arrependimento quanto a muitas atitudes, mas o passado tinha deixado lacunas e cicatrizes profundas na relação. A troca de mimos e carinho não existiam mais e o diálogo pouco mais ou menos. O prazer carnal era a único contacto que mantinham, frio e autómato. Luísa vivia agora numa imensurável solidão, ainda que acompanhada.
Francisco tinha sido colocado no serviço de Luísa há quatro anos. Homem de cinquenta e poucos anos, elegante, educado e imensamente gentil com todos. A viuvez, ainda um pouco recente, deixara-lhe um semblante muito triste, sem contudo perder a doçura e a cordialidade que o caracterizava e que o fazia ser respeitado por toda na empresa. 
Quando Fátima, a mulher de Francisco ficou doente, ele desabava medos e temores com Luísa, por quem tinha sentido uma grande empatia desde o primeiro instante e vice-versa. Luísa tinha encontrado nele um confidente maduro que a aconselhava com sensatez a encontrar um caminho que a fizesse feliz todos os dias, como ela merecia. 
Um dia em que Luísa chegou a casa do trabalho, um pouco mais tarde que o habitual Manuel foi imensamente agressivo com ela, cobrou-lhe afecto, carinho, atitudes, que há muito ele se tinha se escusado dar-lhe. Para ela foi a gota de água para pôr fim a uma relação que tanto já a tinha feito sofrer.
Não entrou em discussões, nem se socorreu das dores do passado, pegou nas suas coisas e deixou-o no apartamento alugado pelos dois há muitos anos atrás.
Um pequeno apartamento junto à sua praia predilecta foi o lugar perfeito que Luísa encontrou para viver em paz, longe da guerra fria na qual esteve envolvida imensos anos. 
A amizade entra ela e Francisco era uma lufada de ar fresco em sua vida.
O casamento dele tinha sido perfeito. Ele amara loucamente Fátima e nunca imaginou viver ao lado de outra mulher que não ela. Luísa sabia-o melhor que ninguém mas nem por isso conseguiu evitar apaixonar-se pela ternura, a cordialidade de Francisco.
Passado um ano da separação, num quente dia do início de Julho, Luísa encontrava-se na sua praia, de cabelos soltos, com seu longo vestido florido esvoaçando, conforme ia sendo acariciado pela da brisa do mar. Seu rosto encontrava-se agora límpido e sereno, liberto das amarguras do passado e os seus pensamentos flutuavam em torno de Francisco. Já não conversava com ele pessoalmente há duas semanas, desde que entrara de férias, e as saudades doíam-lhe tanto.
Francisco por sua vez andava apreensivo com o efeito que a ausência de Luísa lhe estava a causar. Sentia-lhe a falta e os dias sem ela eram difíceis de passar. Nesse dia, no fim do trabalho decidiu visitá-la sem aviso prévio.
Luísa refrescava os pés no mar fresco quando ouviu a voz dele chamá-la. Voltou-se com o coração a querer saltar-lhe do peito e um ligeiro rubor afectando-lhe o rosto  dourado pelo sol. Seus olhos encontraram-se e não foram precisas palavras para saberem o que a partir daquele instante os uniria para sempre.


7 comentários:

  1. Que lindo conto e que bom,estava torcendo por um final feliz! bjs, chica e lindo dia!

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  2. Bonito :)

    Nunca é tarde para fazer o coração bater forte.

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  3. Gostei muito da sua história, Maria. E haverá tanto casos como este que descreve. Mas fiquei contente por Luísa ter encontrado Francisco e por a vida lhe ter dado mais uma oportunidade para ser feliz!

    Um beijinho e obrigada pela partilha :)

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  4. Nunca é tarde para amar e muito menos para ser feliz! O conto é lindo! :)

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  5. Gostei da Luisa. Gostei da atitude da Luisa Guerreira, gostei do novo principio da vida da Luisa :)
    beijinho L :)

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  6. Muito bonito, adorei o final feliz. Beijinhos

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