terça-feira, 21 de julho de 2015

O amor acontece

Ainda o sol se encontrava por detrás do horizonte, já Paula descia com energia as escada do prédio, com o saco para ir ao pão numa das mãos,  na outra segurava a trela do pequeno e vivaço Max. Era assim todas as manhãs há imensos meses.
Desde que adotou o cachorro que Paula deixou de se sentir tão só. A sua vinda para a pequena cidade marítima, longe da família transmontana não estava a ser fácil, dada a sua timidez, própria de quem vem de um pequeno ambiente aldeão. Max era uma excelente companhia que Paula mimava com imenso carinho.
Há umas semanas que aquele rapaz alto, moreno, de rosto sorridente e olhar sedutor passava por ela. As roupas mal tratadas indiciavam que fosse operário numa fabrica qualquer, ou quiçá jornaleiro em qualquer quinta, ao contrário da sua postura elegante e trejeitos delicados que lhe impunham um ar nobre. Paula tentava adivinhar.
Ao acordar só pensava no rapaz moreno e na hora em que se cruzaria com ele na rua deserta.
Perfumava-se de alfazema, enquanto a sua mente imaginava uma série de situações que poderiam acontecer.  A de  lhe ser indiferente era equacionada, a de ele ter já compromisso, também.
A caminho de casa, ela via-o ao fundo da rua. As suas pernas tremiam e o coração galopava. As mãos transpiravam enquanto ela apertava com força a trela de Max.
Uma vez,  ao passar por ela, o desconhecido baixou-se para fazer uma festa ao cão e olhou-a com profundidade dando-lhe bom dia. Paula respondeu timidamente, de rosto afogueado e olhar escorregadio, enquanto o coração parecia saltar-lhe do peito.  Os seus olhares ainda se cruzaram mais uma vez quando nenhum dos dois resistiu olhar para trás, enquanto cada um seguia seu caminho.
Entre olhares intensos e cumprimentos matinais se foram passando os dias.
Um dia Paula ao avistá-lo ao longe observou ele meter a mão no bolso e tirar qualquer coisa de lá. Ao passar por ela, baixou-se, e prendeu o papel que segurava entre os dedos na coleira azul de Max. Lançou-lhe um olhar terno, sorrindo-lhe. Paula devolveu-lhe o sorriso e depois de ele desaparecer na curva, baixou-se para segurar entre as suas mãos trémulas o papel ligeiramente perfumado de after shave, escrito numa caligrafia perfeita.
João confessava-lhe que a melhor parte do seu dia era quando se cruzava com ela e que ultimamente dormia mal ansiando a manhã para poder vê-la. Receava que ela tivessem alguém em sua vida e daí o seu receio em abordá-la. Pedia-lhe que lhe dissesse se poderia alimentar a esperança em poder aproximar-se e deixou-lhe o seu contacto.
Paula ficou atordoada de felicidade. Guardou junto de si o papel que foi relendo vezes sem conta ao longo do dia. 
Ao fim da tarde, depois de fechar a biblioteca, saiu para a sua esplanada preferida à beira mar. Na presença de  um pôr-de-sol deslumbrante, Paula escreveu para João. Confessou-lhe que era descomprometida e que os seus dias tinham ganho cor desde que  começou a cruzar-se com ele. Que também ela ansiava pelas manhãs. Deixou também o seu contacto.
Na manhã seguinte, depois de uma noite de ansiedade que quase lhe roubou o sono, Paula cruzou-se com João. No meio de um sorriso doce e tímido estendeu-lhe o papel que apertava na mão nervosa. Seus dedos tocaram-se ao de leve deixando-a sem jeito. A sua timidez fê-la continuar caminho. Quando chegava ao último degrau, para entrar em casa, com as pernas ainda trémulas pela emoção, o telemóvel tocou. Era João. Falaram por algum tempo tempo e marcaram um encontro a sério, na esplanada preferida dela.
Ao fim da tarde do tão ansiado sábado, Paula caprichou na forma subtil com que se vestiu. A perfeição das suas curvas, adivinhavam-se por debaixo do longo vestido cor de mar. Os seu longos cabelos  dourados e cacheados, soltos despretensiosamente,  conferiam-lhe um ar natural e descontraído. O batom de cereja foi a única maquilhagem que colocou. 
Antes da hora marcada Paula chegou à esplanada. Alguns olhares viraram-se à sua passagem, mas ela nem deu conta. Sentou-se no lugar mais calmo, onde podia observar o voo irregular das gaivotas, e as ondas do mar batendo suavemente nas rochas cobertas de mexilhões, e,ao mesmo tempo, observar a entrada da esplanada.
Quando o viu chegar achou-o mais belo, atraente e encantador que sempre. Quando ele se aproximou da dela, ela levantou-se e estendeu-lhe a mão que ele segurou e não mais largou, enquanto ali ficaram a conversar, até as estrelas nascerem por cima de um amor que jamais teria fim.


4 comentários:

  1. Tão bonito :) Gostei tanto, mas tanto de ler!
    O texto está muito bem escrito. A história flui com desenvoltura, prendendo a nossa atenção a cada linha. E que bom que tem um final feliz :)

    Um beijinho e obrigada por este momento :)

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  2. Maria, e foram felizes para sempre?
    Conta!
    Quando era ainda aluna de liceu, encontrei também um jovem lindo, moreno e tímido. Infelizmente, como começou, assim terminou a história, na tarde em que ele me viu conversando com um amigo - fez uma leitura errada da situação. Tinha então 15 aninhos! E muitos sonhos!
    beijo

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  3. Que linda história e tão bem contada Maria. Espero que esse amor perdure para sempre :)

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  4. Um início de namoro muito bonito! Que a vida continue brilhando para estas pessoas maravilhosas.
    Beijinhos.

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